... A mão do barman a aproximar e a afastar o copo de fino da torneira da máquina, uma rapariga que acende um cigarro, as mãos entrelaçadas de um casal que acabou de entrar são planos de corte. Volto a focar a nossa conversa entremeada de empurrões e sussuros, aquilo que não ouço esbate a unidade do teu raciocínio. A derradeira conversa que eu não estou a acompanhar, as derradeiras conclusões (de certo premeditadas e sensatas) que eu não estou a absorver.
Engraçado que quando me explicas qualquer coisa nunca é aquilo que eu achava que me querias explicar, é sempre uma insinuação de superioridade em forma de precaução para “evitarmos de nos chatear uma próxima vez". Isto é o mesmo que dizer que caso eu nao acate pacata a tua advertência está a noite estragada. Por isso é que já lhes perdi a conta. Durante um tempo senti-me uma namorada em versão trial.
Durante todo este tempo tu continuas a falar. As palavras que vou ouvindo constroem uma estrutura débil de argumentos pouco claros e pouco corajosos da tua parte. Pelo menos é isso que me parece. Puxas-me irritado, para mais perto de ti, e ouço-te claramente:
- Tens cigarros contigo?
Dou-te o maço e permaneço mais perto para tentar ouvir-te com mais clareza. Quero, ao menos, ser um espectador atento do final dos meus dias.
É uma tortura. Uma exposição continuada a algum vírus que, não te matando, vai esgatanhado os tecidos celulares muito antes de saberes o que diabo te está a causar tanto mau estar.
domingo, 7 de dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
Aveiro, 6 de Dezembro O8 | Perdi o dia á procura do Português que não encontrei...
When the city trembles awkwardly
No prudes
And you can only conquer what is only mundane
Make a girl beautiful
I can still smell all the grudge
And I can still see all the veins in your neck
It's me that I forgot how to tease
The child I was today at breakfast
Well reality succeeded yet once more
I used do scream
Now I murmur and it does nothing for me.
Manners?
I still wait for disapproval
Something else rotten
Someone else tremendously offended by things I know nothing about
The biological need of creating something
Something else rotten
Bed sided
No prudes
And you can only conquer what is only mundane
Make a girl beautiful
I can still smell all the grudge
And I can still see all the veins in your neck
It's me that I forgot how to tease
The child I was today at breakfast
Well reality succeeded yet once more
I used do scream
Now I murmur and it does nothing for me.
Manners?
I still wait for disapproval
Something else rotten
Someone else tremendously offended by things I know nothing about
The biological need of creating something
Something else rotten
Bed sided
Aveiro | 5 de Dezembro (sim, sim, são 5 para mim que ainda não me deitei) O8 | Pano para mangas...
...Mas vá, muito a medo, lá olhei para ti a saber já que no teu olhar não ia encontrar a mesma expectativa. Fui eu que assim quis e agora vou sair de casa lá lárá lá lá, a saltar de um pé para o outro, que é como quem diz a saltar de mais uma reincidência para mais um "eu bem te avisei".Vou sempre frustrar-te as expectativas. Vai daqui sabendo que ao menos te dei uma mostra válida da minha raquítica sinceridade. Por muito simples que sejam garanto-te que vou arranjar maneira de não conseguir cumprir as tuas exigências. Vai daqui sabendo que, mais do que muitas vezes, a minha indolência vai sobrepor-se á minha vontade de te fazer o jantar. Nunca vou achar que já passou tempo suficiente desde que pus a roupa a aquecer no aquecedor porque, no fundo, não há razão para sair para te ouvir não gostar de nada do que eu digo. Se vezes há em que nos vemos é porque venci a mândria e respeito-te por isso. Ajudas-me a vir ver se a meteorologia confere. Não confere.
O meu egoísmo vai-me fazer fazer de propósito para me esquecer da hora do autocarro porque os meus vícios prendem-me mais que os teus braços. A minha obstinação e a minha insolência cedo vão deixar de ser "traços de uma personalidade forte e exclusiva" para passarem a ser traços de personalidade de alguém que é apenas insuportável, olhe-se de que ângulo se olhar. Somos intransigentes com os estranhos. Eu vou sempre ser muito mais amante que amor. Eu nunca vou duvidar de nenhuma palavra que me digas mas já estou á espera que duvides de mim e não vou nunca poder fazer nada para te provar que te sou fiel porque tu vais deparar-te com inúmeras coincidências que me vão fazer parecer culpada. Eu sei disto tudo em antemão. E toda a gente sabe o mesmo se der o corpo ao manifesto da imutabilidade. E depois vais por aquele olhar colérico, convencido de morte que estás que eu estou a esconder alguma coisa. Não estou. E depois eu vou tentar explicar e tu vais por um outro tipo de olhar não menos repugnante que é aquele "Sim, sim, fala p'raí que eu filtro metade do que tu dizes num coador fininho", enquanto pensas isto reviras os olhos e principias afazeres banais como se só o que tu tinhas para dizer fosse importante.
A minha confiança nunca será afectada mas tu vais deixar de gostar de mim porque vais passar horas a tentar construir um ponto de vista que eu vou alagar em lágrimas de negação (preferia falar mas...). E eu só choro quando sei que a demonstração da dor serve algum propósito futuro de evitar talvez outras dores.
E tudo isto porque não te amei? Não. Tudo isto porque quero ser trágica e infame para me amares assim, um farrapo pálido, para poder mudar sem passares a vida a pedir-mo porque eu não suporto que passes a vida a pedir-me para mudar.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Coimbra, 4 de Dezembro O8 | Por algum motivo, foi assim que acordei hoje...
Ainda que tente, com um zelo que a quem ele não falha não entende, o adjectivo foge-me. Vai-se esbatendo, esbatendo… cerro o sobrolho e os punhos, puxo, puxo, pulsa o sangue nas veias das têmporas e desapareceu. Não o adjectivo, apenas um que qualifique parcialmente aquilo que apenas parcialmente sinto. Não sei o que me roubou à beleza feroz de conseguir sentir. O apaixonante desgaste de estar a sofrer e não por isto. O abandono, a quase facilidade que é sofrer por outra coisa qualquer. Qualquer outra coisa qualquer. Sentir com mandíbulas insaciáveis. Tão útil como um pêndulo de usar ao pescoço que aquele alguém nos deu no único dia da vida em que nos sentimos alguém. Tão útil como aquela escada gasta de um prédio periférico que apenas está para quem, de muito em muito tempo, ainda precisa de a subir.É tarde e eu vejo luzes que afectam cada esquina da cidade dos meus sonhos. São cafés que ocupam edifícios seculares de onde chega o som do violino áspero, são restaurantes indianos, os neons eternamente danificados. Piscam e uma pessoa associa-lhes, por algum motivo, a decadência, a falta de clientela e passa ao lado.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Coimbra, 3 de Dezembro de O8 | Dá-me só uns minutinhos...
Uma cura qualquer, um placebo que resultasse já seria subir um degrau ainda que gasto do uso. Uma cura parcial que resolvesse parcialmente qualquer parte disto já seria um degrau ainda que de um edifício periférico, não tão gasto do uso. Vislumbro na cidade cosmopolita que se admira, o desapego dos sorrisos que foram tudo o que eu sempre quis. Um abrir de lábios despreocupado, rasgado e genuíno na esquina da cidade que eu sempre quis. O pulsar da vida que um dia idealizei bate-me aqui no pulso tão nítido na distância. Porque é que se esvaziou em mim a garra e o desejo? Estou aqui parada á espera que emerjam todos os meus desejos aleatórios. Nem me apetece enumera-los.
Dá-me uns minutinhos. Se me deres uns minutinhos e não me interromperes o raciocínio, se me deixares dizer aquilo que ando aqui a remoer ao tempo prometo que me vou embora e não te vou perseguir nem nada. Não te ligo, não te escrevo mensagens. Se eu sentir que o que eu disse fez sentido e que me ouviste com aquelas expressões faciais das pessoas atentas, se a isso juntares um aceno com a cabeça para eu saber que estás a ouvir com respeito que mais que mereço pode ser que eu até abdique de criticar o que quer que seja que tenhas dicidido fazer da tua vida depois de mim.
Dá-me uns minutinhos. Se me deres uns minutinhos e não me interromperes o raciocínio, se me deixares dizer aquilo que ando aqui a remoer ao tempo prometo que me vou embora e não te vou perseguir nem nada. Não te ligo, não te escrevo mensagens. Se eu sentir que o que eu disse fez sentido e que me ouviste com aquelas expressões faciais das pessoas atentas, se a isso juntares um aceno com a cabeça para eu saber que estás a ouvir com respeito que mais que mereço pode ser que eu até abdique de criticar o que quer que seja que tenhas dicidido fazer da tua vida depois de mim.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Aveiro, 2 de Dezembro O8 | Coisas em que não pensei nem por um segundo a mais e agora vieram a correr atrás de mim...
Ainda ontem estava contigo no café a falar de uma das grandes questões do ser humano, não, não é uma das grandes questões do nosso tempo enquanto humanidade, é só uma das grandes questões dos nossos incontáveis e atormentados discursos de café que, a bem da verdade, é a única actividade que praticamos com regularidade e que levamos a sério. Se ao menos eu tivesse um texto por cada conversa...
Estavamos então a falar da diferença entre desistir por opção e sermos obrigados a abandonar alguma coisa por imposição - da saúde, do dinheiro, da outra tal pessoa. Escolher não querer é muito diferente de não poder escolher não querer.
Por este motivo, estranho e condenável, as pessoas passam grande parte da sua vida a lamentar a perda de coisas que um dia tiveram. No nosso caso, coisas que deixamos ir por vontade própria eu diria mesmo que empurramos pela porta fora para abrir espaço para oportunidades que nunca chegaram. Isto porque é sempre (sempre!) muito mais fácil destruir um castelo de cartas do que ergue-lo, isso toda a gente sabe. Agora que não temos o conforto e a estabilidade que odiámos tanto, não temos mais nada. Agora que somos livres isso não serve para nada, agora que não temos nem responsabilidades nem horários, nem a prisão tão cerrada de uma condição física alienante, parece que trocávamos tudo por uma semana nessa angústia que afinal não era angústia nenhuma.
Estavamos então a falar da diferença entre desistir por opção e sermos obrigados a abandonar alguma coisa por imposição - da saúde, do dinheiro, da outra tal pessoa. Escolher não querer é muito diferente de não poder escolher não querer.
Por este motivo, estranho e condenável, as pessoas passam grande parte da sua vida a lamentar a perda de coisas que um dia tiveram. No nosso caso, coisas que deixamos ir por vontade própria eu diria mesmo que empurramos pela porta fora para abrir espaço para oportunidades que nunca chegaram. Isto porque é sempre (sempre!) muito mais fácil destruir um castelo de cartas do que ergue-lo, isso toda a gente sabe. Agora que não temos o conforto e a estabilidade que odiámos tanto, não temos mais nada. Agora que somos livres isso não serve para nada, agora que não temos nem responsabilidades nem horários, nem a prisão tão cerrada de uma condição física alienante, parece que trocávamos tudo por uma semana nessa angústia que afinal não era angústia nenhuma.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Aveiro, 1 de Dezembro O8 | ... e já não senti nada...
Vou experimentando com as palmas das mãos abertas o pedaço de cama á minha volta a ver se encontro o telemóvel para ver as horas. Se pudesse dormia o resto da vida com o peso de todo o cansaço de toda a gente que anda para lá e para cá numa dessas cidades que alguns têm o prazer de arrebatar. Os bonitos. Não os bons e nem os ricos - não os filantropos, não os políticos nem os grandes retalhistas, nem os senhores com motorista nem as senhoras com casacos de pele verdadeira a quem deviamos também abrir um corte fininho nas costas, de um ombro ao outro, e puxar para baixo a pele como quem arranca um poster de um prédio com as ganas de se ser contra o que lá está escrito. Lá estou eu a frustrar a minha própria linha de raciocínio.
É isto o que hoje me diminui: a vontade de usurpar o que é devido e convencionado, levar tudo comigo num passo largo, destemido e concluso, interromper com a precisão e a infalibilidade de um bisturi os pensamentos de toda a gente e que toda a gente não se lembre sequer da sua vida anterior (ou se a quer) durantes os breves minutos em que me vê ou me ouve ou me lê. É a esta impossibilidade que atribuo o meu estado actual de desespero puro que não sei que mais lhe chamar. Talvez desesperança. Oh, o ávido litígio pela verdade acessória das coisas. Para quê? Quem nos contagiou com esta epidemia da consciência?... Cada um tem A sua verdade (assim mesmo, com letra maiúscula), a mais determinante, aquela a que não podemos escapar, aquela a que reservamos especial ranço e rancor e mesmo assim arranjamos tempo para a considerar como se não fosse já um dado adquirido. Vamos lá revestir a nossa triste condição de mais um "se" ou um "mas".
A minha triste condição já não tem atenuantes. O que eu tenho é estas frases na cabeça, permanentemente, estas frases, expressões que qualificam o que é médio - aceitável, razoável, suficiente,"bonzinho". Ir andando na vida sabendo que não faço a mais mísera, a mais raquítica, a mais insondável diferença.
É isto o que hoje me diminui: a vontade de usurpar o que é devido e convencionado, levar tudo comigo num passo largo, destemido e concluso, interromper com a precisão e a infalibilidade de um bisturi os pensamentos de toda a gente e que toda a gente não se lembre sequer da sua vida anterior (ou se a quer) durantes os breves minutos em que me vê ou me ouve ou me lê. É a esta impossibilidade que atribuo o meu estado actual de desespero puro que não sei que mais lhe chamar. Talvez desesperança. Oh, o ávido litígio pela verdade acessória das coisas. Para quê? Quem nos contagiou com esta epidemia da consciência?... Cada um tem A sua verdade (assim mesmo, com letra maiúscula), a mais determinante, aquela a que não podemos escapar, aquela a que reservamos especial ranço e rancor e mesmo assim arranjamos tempo para a considerar como se não fosse já um dado adquirido. Vamos lá revestir a nossa triste condição de mais um "se" ou um "mas".
A minha triste condição já não tem atenuantes. O que eu tenho é estas frases na cabeça, permanentemente, estas frases, expressões que qualificam o que é médio - aceitável, razoável, suficiente,"bonzinho". Ir andando na vida sabendo que não faço a mais mísera, a mais raquítica, a mais insondável diferença.
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