Estou sempre a pensar nessa enormidade de certeza que te acimenta a alma e aguça o desejo e o paladar por dias em outras paragens. Esse fascínio embaciado que é descobrir outra pessoa.
... Eu aqui ajoelhada, com a cara entre as conchas das mãos a dizer que me dói a cabeça terrivelmente e a saber já que nunca me dói a cabeça e:
- Será que não sabes que nunca me dói a cabeça?
Amanhã, dizem, vai estar um tempo abafado de trovoada eu gosto de trovoada no teu carro, a fumar, ao pé da nossa casa e do antigo sétimo que também podia ser nosso. A nossa praia de Inverno, as tábua do palanque molhadas e queixosas. Quantos mais dias de Sol atravessarei com frio? Invejo com ganas de dentes cerrados as almas plácidas e pouco expectantes que vão sabendo nutrir-se daquilo que vem com a passagem das horas e a morte adiada da passagem das horas. Se me sento na Sereia e fecho os olhos vejo as estações do ano a passar com o exagero cénico das cores acentuadas - as estalactites a pingar das arestas de pedra de tudo, o calor fugidío, menos pessoas e vários tons de castanho - nóz, nóz moscada, amêndoa, café...
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
domingo, 28 de dezembro de 2008
Aveiro | ... Steppin' out the car with that look in your eyes knowing that you never looked so beautiful ...
... Eu aqui sentada ante luz alaranjada, antes do príncipio, parece-me, de tudo. A luz que me dá cores ao rosto apagado do frio e de pensar. Eu aqui e tu não sei o que me disseste a última vez que falámos foram banalidades com utilidade quotidiana. Um problema dos ex-amores para o outro é este de como todas as palavras se tornam diálogos de amigos pouco cúmplices. Mais conhecidos que se obdecem no código do bom-senso.
... Eu sem te voltar a dizer o que sinto mas também sem conseguir não te olhar como quando se sente mais que banalidades. Com os meus amigos vou somando silêncios que duram horas de conversa estagnada e estéril.
... Eu sem te voltar a dizer o que sinto mas também sem conseguir não te olhar como quando se sente mais que banalidades. Com os meus amigos vou somando silêncios que duram horas de conversa estagnada e estéril.
sábado, 27 de dezembro de 2008
Aveiro - Coimbra | A questão do Sol de Inverno...

O António Variações é que sabia, sabia mesmo esse senhor:
" Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão..."
E segue com mais palavras de uma sabedoria sem artifícios ou metáforas intransponível que não podemos negar, aquelas que toda a gente conhece e em que toda a gente já pensou "... só estou bem onde não estou ... "
Coimbra é hoje mais influente na minha personalidade e na minha conduta do que eu gostaria de admitir porque sempre achei um exagero a reverência que se presta á cidade dos universitários que, hoje em dia pelo menos, pouco mais fazem que regurgitar o álcool que ingerem em quantidades industriais...
De facto, estou hoje (e outros dias como hoje) tão melhor na Sé Velha a ler, no Tropical a apanhar Sol no andar de cima durante o tempo mísero em que o Sol bate na mesa para dois ao pé da janela. Foi uma coisa que fui aprendendo em Coimbra. As horas do Sol de Inverno. Escolher o caminho conforme os raios egoístas que tingem de amarelo apenas metade da Rua da Moeda. Tomar café na esplanada da Toledo entre a uma e meia e as duas da tarde, quando o Sol é forte ao ponto de nos impossibilitar de ler em fundo branco mas não esbate essa insegurança que vem com o ar que se respira na cidade dos grandes Homens de Letras...
" Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão..."
E segue com mais palavras de uma sabedoria sem artifícios ou metáforas intransponível que não podemos negar, aquelas que toda a gente conhece e em que toda a gente já pensou "... só estou bem onde não estou ... "
Coimbra é hoje mais influente na minha personalidade e na minha conduta do que eu gostaria de admitir porque sempre achei um exagero a reverência que se presta á cidade dos universitários que, hoje em dia pelo menos, pouco mais fazem que regurgitar o álcool que ingerem em quantidades industriais...
De facto, estou hoje (e outros dias como hoje) tão melhor na Sé Velha a ler, no Tropical a apanhar Sol no andar de cima durante o tempo mísero em que o Sol bate na mesa para dois ao pé da janela. Foi uma coisa que fui aprendendo em Coimbra. As horas do Sol de Inverno. Escolher o caminho conforme os raios egoístas que tingem de amarelo apenas metade da Rua da Moeda. Tomar café na esplanada da Toledo entre a uma e meia e as duas da tarde, quando o Sol é forte ao ponto de nos impossibilitar de ler em fundo branco mas não esbate essa insegurança que vem com o ar que se respira na cidade dos grandes Homens de Letras...
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Aveiro | E tu já quase nada...
... E tu já quase nada não fosse aquela música ridícula que a rádio passou e eu não pude mudar. Eu com medo do verso seguinte, medo que se provou fundamentado, do outro verso, de mais um, daquele ritmo que o gajo dá, aquela frase. Tu já quase nada e eu a querer mentir a mim mesma. Se é assim, o que faz esse espectro de contornos brilhantes á minha volta todo o dia? Perpétuo no legado e na consciência, longe na realidade. Tu já quase nada e eu:
- Voltaste?
Sabia que não ias voltar. Engrandeci-me de voos míupes, á falta de objectos tangíveis que me pudessem confortar. Não há. E tu, que eras, és agora quase nada.
Estavas naquela moldura que arrumei num sítio que não me lembro quando arrumei o quarto desta última vez. Estavas comigo e eu era a única que tinha aquela classificação a que se junta qualquer coisa incondicional.
Uma gota de sangue que demora a libertar-se da ferida que nem dói por aí além mas que faz uma certa impressão de ser aquilo, de ser sangue, de se saber que o sangue existe e está a sair de nós.
- Voltaste?
Sabia que não ias voltar. Engrandeci-me de voos míupes, á falta de objectos tangíveis que me pudessem confortar. Não há. E tu, que eras, és agora quase nada.
Estavas naquela moldura que arrumei num sítio que não me lembro quando arrumei o quarto desta última vez. Estavas comigo e eu era a única que tinha aquela classificação a que se junta qualquer coisa incondicional.
Uma gota de sangue que demora a libertar-se da ferida que nem dói por aí além mas que faz uma certa impressão de ser aquilo, de ser sangue, de se saber que o sangue existe e está a sair de nós.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
Aveiro | Dia 25... vulgo, Natal
Aveiro sempre deserta já se sabe. A um Domingo normal precisamos de esperar para ver passar um carro imagine-se na noite de Natal. Só as colunas com as músicas da época e os anúnicios ás vidrarias, pastelarias, talhos, empresas de instalações eléctricas, the usual. Quanto a mim, com a Nikon topo de gama, cortesia da minha mãe, e uns phones gigantescos que me agasalham o cérebro de toda a gente , vou por aí aos flashes aos sítios e nunca aos protagonistas.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Aveiro | Have yourself a merry little something...
Abri agora todas as prendas que me deste ao longo de três Natais, mais de 24 dias especiais (um em cada mês) e quatro aniversários. Mais umas mariquices manifestamente inúteis mas que eu na altura achei a maior piada. Lugares-comuns dos apaixonados. Mesmo que hoje me seja legítimo questionar pelo menos 8 desses tais 24 dias especiais, é bom continuar a sofrer por nunca ter amado perdidamente mais que 3 desses 24 dias especiais. Porque á distância deste tempo todo, tudo é sempre tão pouco.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Aveiro | Dias enormes...
Têm estado Sol. Um Sol que acompanha a neve que se farta de cair lá mais para o Norte, um Sol que não aquece mas conforta porque o Inverno devia ser sempre assim: frio e muito Sol.
Da janela do terraço consigo ver as salinas de Aveiro, aqueles quadradinhos abandonados, os terrenos pantanosos, os armazéns de sal transformados todos em bares e restaurantes. Imposições do progresso, valores mais altos de alevantam. Não estou agora para contrapor Camões. É trabalho ardúo, esse.
Estes dias são, em fatias iguais, o melhor e o pior da vida: o melhor que só o conforto do Sol nos sabe dar, um jornal e um café abatanado ao princípio da tarde na esplanada dos Arcos; e o pior que é a nostalgia das luzes e dos cheiros, dos chocolates, dos laços das prendas que antecedem o Natal. Inevitavelmente pensamos no que já passou, no que não soubemos cuidar e por isso nos foi levado. Eu, particularmente, retenho no pensamento, entre outras coisas menos fatais, o meu avô que morreu Março passado. O quanto ele era empreendedor, a quantidade de planos e ideias que ele cultivava, os recortes do jornal que me deixou (um caixote onde veio a televisão cheio de crónicas do Correio da Manhã, do JN e do Público sobre o 11 de Setembro, eis uma das relíquias), a sua enorme cultura e inteligência, que deprimiam qualquer intelectual. O seu contributo para o quadro dos meus valores perdura e todos os dias me constroi. "O que é que o meu avô faria?"
Não vou ler mais sonetos sobre os tempos da guerra em África, nem vou ter quem me faça secretárias exactamente iguais aos meus desenhos e muito menos quem mas deixe pintar de roxo. Não conheci até agora mais ninguém que saiba os poemas de Antero e Pessoa de cor nem que coleccione frascos de perfume vazios. Provavelmente não vou voltar a plantar morangos nem a enxertar uma espécie de pêssegos num pessegueio diferente e também não vou ter mais nenhuma casa na árvore. E se não fosse o meu avô eu não tinha nunca comido medronhos. Não tinha visto os Jerónimos, nem Marvão, nem o Castelo de Ourém nem o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros, nem o Mosteiro de Alcobaça e a Batalha e Óbidos que é tão lindo. O legado é palpável mas não o é a pessoa e toda a gente sabe que um legado, por muito nobre, perece em comparação com um abraço.
Da janela do terraço consigo ver as salinas de Aveiro, aqueles quadradinhos abandonados, os terrenos pantanosos, os armazéns de sal transformados todos em bares e restaurantes. Imposições do progresso, valores mais altos de alevantam. Não estou agora para contrapor Camões. É trabalho ardúo, esse.
Estes dias são, em fatias iguais, o melhor e o pior da vida: o melhor que só o conforto do Sol nos sabe dar, um jornal e um café abatanado ao princípio da tarde na esplanada dos Arcos; e o pior que é a nostalgia das luzes e dos cheiros, dos chocolates, dos laços das prendas que antecedem o Natal. Inevitavelmente pensamos no que já passou, no que não soubemos cuidar e por isso nos foi levado. Eu, particularmente, retenho no pensamento, entre outras coisas menos fatais, o meu avô que morreu Março passado. O quanto ele era empreendedor, a quantidade de planos e ideias que ele cultivava, os recortes do jornal que me deixou (um caixote onde veio a televisão cheio de crónicas do Correio da Manhã, do JN e do Público sobre o 11 de Setembro, eis uma das relíquias), a sua enorme cultura e inteligência, que deprimiam qualquer intelectual. O seu contributo para o quadro dos meus valores perdura e todos os dias me constroi. "O que é que o meu avô faria?"
Não vou ler mais sonetos sobre os tempos da guerra em África, nem vou ter quem me faça secretárias exactamente iguais aos meus desenhos e muito menos quem mas deixe pintar de roxo. Não conheci até agora mais ninguém que saiba os poemas de Antero e Pessoa de cor nem que coleccione frascos de perfume vazios. Provavelmente não vou voltar a plantar morangos nem a enxertar uma espécie de pêssegos num pessegueio diferente e também não vou ter mais nenhuma casa na árvore. E se não fosse o meu avô eu não tinha nunca comido medronhos. Não tinha visto os Jerónimos, nem Marvão, nem o Castelo de Ourém nem o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros, nem o Mosteiro de Alcobaça e a Batalha e Óbidos que é tão lindo. O legado é palpável mas não o é a pessoa e toda a gente sabe que um legado, por muito nobre, perece em comparação com um abraço.
Subscrever:
Mensagens (Atom)