terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Aveiro | For old time's sake...

Estou sempre a pensar nessa enormidade de certeza que te acimenta a alma e aguça o desejo e o paladar por dias em outras paragens. Esse fascínio embaciado que é descobrir outra pessoa.
... Eu aqui ajoelhada, com a cara entre as conchas das mãos a dizer que me dói a cabeça terrivelmente e a saber já que nunca me dói a cabeça e:
- Será que não sabes que nunca me dói a cabeça?
Amanhã, dizem, vai estar um tempo abafado de trovoada eu gosto de trovoada no teu carro, a fumar, ao pé da nossa casa e do antigo sétimo que também podia ser nosso. A nossa praia de Inverno, as tábua do palanque molhadas e queixosas. Quantos mais dias de Sol atravessarei com frio? Invejo com ganas de dentes cerrados as almas plácidas e pouco expectantes que vão sabendo nutrir-se daquilo que vem com a passagem das horas e a morte adiada da passagem das horas. Se me sento na Sereia e fecho os olhos vejo as estações do ano a passar com o exagero cénico das cores acentuadas - as estalactites a pingar das arestas de pedra de tudo, o calor fugidío, menos pessoas e vários tons de castanho - nóz, nóz moscada, amêndoa, café...

domingo, 28 de dezembro de 2008

Aveiro | ... Steppin' out the car with that look in your eyes knowing that you never looked so beautiful ...

... Eu aqui sentada ante luz alaranjada, antes do príncipio, parece-me, de tudo. A luz que me dá cores ao rosto apagado do frio e de pensar. Eu aqui e tu não sei o que me disseste a última vez que falámos foram banalidades com utilidade quotidiana. Um problema dos ex-amores para o outro é este de como todas as palavras se tornam diálogos de amigos pouco cúmplices. Mais conhecidos que se obdecem no código do bom-senso.
... Eu sem te voltar a dizer o que sinto mas também sem conseguir não te olhar como quando se sente mais que banalidades. Com os meus amigos vou somando silêncios que duram horas de conversa estagnada e estéril.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Aveiro - Coimbra | A questão do Sol de Inverno...



O António Variações é que sabia, sabia mesmo esse senhor:

" Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P'ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão..."

E segue com mais palavras de uma sabedoria sem artifícios ou metáforas intransponível que não podemos negar, aquelas que toda a gente conhece e em que toda a gente já pensou "... só estou bem onde não estou ... "

Coimbra é hoje mais influente na minha personalidade e na minha conduta do que eu gostaria de admitir porque sempre achei um exagero a reverência que se presta á cidade dos universitários que, hoje em dia pelo menos, pouco mais fazem que regurgitar o álcool que ingerem em quantidades industriais...

De facto, estou hoje (e outros dias como hoje) tão melhor na Sé Velha a ler, no Tropical a apanhar Sol no andar de cima durante o tempo mísero em que o Sol bate na mesa para dois ao pé da janela. Foi uma coisa que fui aprendendo em Coimbra. As horas do Sol de Inverno. Escolher o caminho conforme os raios egoístas que tingem de amarelo apenas metade da Rua da Moeda. Tomar café na esplanada da Toledo entre a uma e meia e as duas da tarde, quando o Sol é forte ao ponto de nos impossibilitar de ler em fundo branco mas não esbate essa insegurança que vem com o ar que se respira na cidade dos grandes Homens de Letras...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Aveiro | E tu já quase nada...

... E tu já quase nada não fosse aquela música ridícula que a rádio passou e eu não pude mudar. Eu com medo do verso seguinte, medo que se provou fundamentado, do outro verso, de mais um, daquele ritmo que o gajo dá, aquela frase. Tu já quase nada e eu a querer mentir a mim mesma. Se é assim, o que faz esse espectro de contornos brilhantes á minha volta todo o dia? Perpétuo no legado e na consciência, longe na realidade. Tu já quase nada e eu:
- Voltaste?
Sabia que não ias voltar. Engrandeci-me de voos míupes, á falta de objectos tangíveis que me pudessem confortar. Não há. E tu, que eras, és agora quase nada.
Estavas naquela moldura que arrumei num sítio que não me lembro quando arrumei o quarto desta última vez. Estavas comigo e eu era a única que tinha aquela classificação a que se junta qualquer coisa incondicional.
Uma gota de sangue que demora a libertar-se da ferida que nem dói por aí além mas que faz uma certa impressão de ser aquilo, de ser sangue, de se saber que o sangue existe e está a sair de nós.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Aveiro | Dia 25... vulgo, Natal

Aveiro sempre deserta já se sabe. A um Domingo normal precisamos de esperar para ver passar um carro imagine-se na noite de Natal. Só as colunas com as músicas da época e os anúnicios ás vidrarias, pastelarias, talhos, empresas de instalações eléctricas, the usual. Quanto a mim, com a Nikon topo de gama, cortesia da minha mãe, e uns phones gigantescos que me agasalham o cérebro de toda a gente , vou por aí aos flashes aos sítios e nunca aos protagonistas.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Aveiro | Have yourself a merry little something...

Abri agora todas as prendas que me deste ao longo de três Natais, mais de 24 dias especiais (um em cada mês) e quatro aniversários. Mais umas mariquices manifestamente inúteis mas que eu na altura achei a maior piada. Lugares-comuns dos apaixonados. Mesmo que hoje me seja legítimo questionar pelo menos 8 desses tais 24 dias especiais, é bom continuar a sofrer por nunca ter amado perdidamente mais que 3 desses 24 dias especiais. Porque á distância deste tempo todo, tudo é sempre tão pouco.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aveiro | Dias enormes...

Têm estado Sol. Um Sol que acompanha a neve que se farta de cair lá mais para o Norte, um Sol que não aquece mas conforta porque o Inverno devia ser sempre assim: frio e muito Sol.
Da janela do terraço consigo ver as salinas de Aveiro, aqueles quadradinhos abandonados, os terrenos pantanosos, os armazéns de sal transformados todos em bares e restaurantes. Imposições do progresso, valores mais altos de alevantam. Não estou agora para contrapor Camões. É trabalho ardúo, esse.

Estes dias são, em fatias iguais, o melhor e o pior da vida: o melhor que só o conforto do Sol nos sabe dar, um jornal e um café abatanado ao princípio da tarde na esplanada dos Arcos; e o pior que é a nostalgia das luzes e dos cheiros, dos chocolates, dos laços das prendas que antecedem o Natal. Inevitavelmente pensamos no que já passou, no que não soubemos cuidar e por isso nos foi levado. Eu, particularmente, retenho no pensamento, entre outras coisas menos fatais, o meu avô que morreu Março passado. O quanto ele era empreendedor, a quantidade de planos e ideias que ele cultivava, os recortes do jornal que me deixou (um caixote onde veio a televisão cheio de crónicas do Correio da Manhã, do JN e do Público sobre o 11 de Setembro, eis uma das relíquias), a sua enorme cultura e inteligência, que deprimiam qualquer intelectual. O seu contributo para o quadro dos meus valores perdura e todos os dias me constroi. "O que é que o meu avô faria?"

Não vou ler mais sonetos sobre os tempos da guerra em África, nem vou ter quem me faça secretárias exactamente iguais aos meus desenhos e muito menos quem mas deixe pintar de roxo. Não conheci até agora mais ninguém que saiba os poemas de Antero e Pessoa de cor nem que coleccione frascos de perfume vazios. Provavelmente não vou voltar a plantar morangos nem a enxertar uma espécie de pêssegos num pessegueio diferente e também não vou ter mais nenhuma casa na árvore. E se não fosse o meu avô eu não tinha nunca comido medronhos. Não tinha visto os Jerónimos, nem Marvão, nem o Castelo de Ourém nem o Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros, nem o Mosteiro de Alcobaça e a Batalha e Óbidos que é tão lindo. O legado é palpável mas não o é a pessoa e toda a gente sabe que um legado, por muito nobre, perece em comparação com um abraço.